Um dos grandes riscos que um profissional em ascensão na carreira sofre é confundir-se, transformando o seu cargo, a sua função ou a sua atividade em sua própria personalidade.


Nesse caso, o profissional cai, na maioria das vezes inconscientemente, numa grande armadilha. A armadilha do ego.


As consequências desse fato são extremamente negativas, pois além de prejudicar a própria carreira de executivo, produz efeitos negativos em todos os seus relacionamentos. Veremos esse impacto em mais detalhes adiante.


É muito fácil identificar um indivíduo nessa situação. Inflado pela armadilha do ego, ele costuma ser o centro das atenções em todos os lugares por onde passa.


Em princípio, uma pessoa atraente e espirituosa. Porém com o tempo essa necessidade de ser o centro de tudo acaba por torná-lo pedante e desagradável e então passa a ser rejeitado em todos os lugares e ocasiões.


O grande problema é que nem sempre essa rejeição é sinalizada de forma objetiva pelas pessoas com quem ele convive. O que ocorre na prática é que essa pessoa acaba sendo motivo de piadas e chacotas quando ausente.


Com vida social e profissional intensa, ele costuma frequentar todos os lugares. Não raramente acumula compromissos e sua agenda está sempre cheia. Por vezes marca mais de um compromisso para o mesmo horário ou com alguma intersecção, o que faz que as pessoas tenham que aguardá-lo. E não se incomoda com isso. Ao contrário, às vezes dá impressão aos demais que faz isso por um gosto pessoal, sente-se mais importante.


Na empresa é o chefe que necessita ter a palavra final em tudo, costuma dar bronca em público e resiste a tecer um elogio. Ou então é o técnico que sabe tudo e não aceita ideias ou opiniões de colegas ou subordinados, pois para ele isso significaria a redução de sua importância.


Na comunidade, qualquer que seja o grupo em que interaja, ele necessita estar sempre no comando. Quando encontra resistência às suas ideias e posições facilmente se altera e, então, usa de sua autoridade para impor-se.


Na família costuma ser o pai ou a mãe autoritária que detesta ter suas posições contrariadas e necessita manter o controle de tudo. Ou o marido ou esposa que costuma ver no cônjuge um ser que precisa ser subjugado aos seus favores, colocando-o sempre que possível numa posição de inferioridade e usando o seu sucesso profissional ou seu papel de provedor como base para essas atitudes.


Não raramente quando contrariado sobe o tom em acessos incontroláveis de cólera que acabam expondo de maneira escandalosa seu gênio difícil e conflitante.


A palavra "eu" é a mais usada em seu vocabulário. Não se engane quando ele utiliza a palavra "nós", na verdade quer dizer "vocês" e a intenção real é emitir uma ordem para que seja executada alguma tarefa.


Adora ser servido, mas detesta servir.


Outra característica marcante de sua personalidade é o hábito de achar justificativas quando por algum motivo suas ações não produziram os resultados esperados ou cometeu algum erro. Ele também sempre irá encontrar outro culpado pelos seus fracassos.


A essa altura, creio que o leitor já conseguiu identificar alguém próximo com essas características.


O curioso desta situação é que muitas vezes essa pessoa passa por tudo isso de forma inconsciente. Na realidade, trata-se de um bom indivíduo, coberto de boas intenções e que caiu na cilada inconsciente de confundir-se com seu cargo consigo mesmo.


Em minha experiência de ascensão de carreira percebi, quando assumi meu primeiro cargo de gerente, que existe uma grande diferença entre a idealização do que você encontrará pela frente e a realidade factual.


Percebi também que, quanto maior for seu desejo, seu sonho de chegar a posição almejada, maior será o risco de cair nesta armadilha.


No meu caso, apesar de ter cometido alguns erros, tive a felicidade de, com base em exemplos que encontrei na carreira, adquirir consciência do risco que eu corria, já que por vir de uma origem muito pobre, havia idealizado e sonhado exageradamente sobre o glamour que existiria nesse novo universo que se descortinava para mim.


Portanto, a meu ver, a palavra chave para blindar o risco dessa armadilha é consciência. Somente com uma consciência muito clara do momento que está vivendo, o indivíduo conseguirá praticar atitudes para blindar plenamente o risco de cair nessa armadilha.


Finalmente chegamos ao ponto em que cabe a pergunta: Em que situação me encontro? Será que caí na armadilha? A seguir relaciono algumas dicas em forma de perguntas que podem sugerir a possibilidade de você ter caído nela, ou não.


Faça essas perguntas a si mesmo e “ouça” as respostas de sua consciência:


1 - Quantas vezes eu utilizo a palavra "eu" em uma fala com a equipe ou em uma conversa normal?

2 - Tenho a tendência de, ao enfrentar um problema, imediatamente buscar culpados?

3 - Em reuniões tenho a tendência a monopolizar as conversas e as decisões?

4 - Tenho o hábito de criticar as pessoas em público?

5 - Encontro dificuldades em elogiar pessoas?

6 - Costumo compartilhar o mérito das conquistas com os demais membros da equipe?

7 - As pessoas costumam me procurar para pedir conselhos?

8 - Tenho dificuldades em reconhecer um erro?

9 - Qual a prioridade da minha família na minha vida?

10 - Costumo curtir os momentos de lazer em família ou sinto uma sensação de desconforto, como se estivesse perdendo tempo?

11 - Sinto prazer ao realizar pequenas atividades domésticas?

12 - Consigo distribuir de forma equilibrada meu tempo entre trabalho, lazer e família?

13 - Como trato as pessoas que dependem de mim, tais como garçons, serventes e funcionários da base da hierarquia?

14 - Como trato bajuladores, com desprezo ou com benevolência?

15 - Quando me perguntam quem eu sou, costumo dizer o meu cargo ou minha formação?

16 - Entre admiração e respeito, o que você acha que as pessoas mais sentem em relação a você?

17 - Gosto que as pessoas dependam de mim?

18 - Consigo rir de mim mesmo (a)?

19 - Consigo pedir desculpas com facilidade e arrepender-me de verdade?

20 - Costumo encerrar conversas com posições definitivas como: "a grande verdade é..."? Ou "Minha posição final sobre isso é..."?

21 - Costumo admirar demais fotos minhas?


Ampliando a percepção


É natural que qualquer um de nós ao se submeter a todas essas questões, e respondê-las com honestidade, sejamos surpreendidos por algumas respostas.


Explica-se isso pelo fato de a maioria de nós levarmos uma vida inconsciente, no piloto automático. E com isso nos tornarmos vítimas de nós mesmos.


Mas isso não impede que possamos estar fora da armadilha.


É praticamente impossível sermos tão perfeitos a ponto de obter aprovação em todas essas questões. Até mesmo porque não existe a resposta certa para a maioria delas.


A ideia aqui é, mais do que criar uma métrica, estabelecer uma lista de referenciais para que o leitor possa fazer uma análise da sua atual realidade em relação a esse tema.


Tomando como base suas respostas honestas a respeito das questões apresentadas, o leitor terá um termômetro que poderá ser de grande importância para que, com muita consciência, possa estabelecer um plano para não cair na armadilha ou, se for o caso, sair dela.


Por que é tão importante não cair nessa armadilha?


No final das contas, apesar de causarmos tanto impacto negativo nas pessoas a nossa volta, o maior prejudicado será nós mesmos. Isso acontece porque, com o passar do tempo e os desgastes gerados, as pessoas vão acabar se afastando e nossos relacionamentos acabarão se esvaziando.


Além disso, pode nos passar despercebido, mas novos degraus em nossa carreira poderão ser bloqueados por esse tipo de atitude.


Podemos seguir a jornada, afinal nosso desempenho profissional acaba ofuscando temporariamente essas questões e nos mantém ocupados. Mas, com o tempo, inexoravelmente essa conta chegará.


E, quanto mais tarde na vida nos dermos conta disso, mais duramente essa fatura será cobrada. Tão dura que talvez não tenhamos mais tempo de recuperá-la.


E ela virá inexoravelmente no dia que tivermos que, não importa qual seja a razão, abandonar nosso cargo. E mais dura ela será se tivermos que enfrentá-la sós.


Na vida, quanto mais o tempo passa, temos mais dúvidas que certezas. Mas uma certeza, que por questão de bom senso não devemos abandonar, é essa.


Então podemos concluir que, uma vez chegando lá, após uma série de lutas, esforços e sacrifícios e conquistarmos a posição tão desejada, encontramos pela frente um novo desafio.


Além de, como todos sabemos, ter que seguir na luta para manter a posição, ou subir ainda mais, dependendo dos objetivos estabelecidos, ainda teremos que enfrentar um inimigo interno tão ou mais poderoso que todos os desafios enfrentados durante nossa jornada.


Como vimos, não é uma tarefa fácil, mas também não é impossível. A boa notícia é que a solução só depende de nós.


Boa sorte e muito sucesso, de preferência fora da armadilha do ego!



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